
Estate Romana, o terceiro filme de Matteo Garrone, mostra-nos o realizador a explorar a sua cidade: Roma, local de um calor caótico propício a uma criatividade caótica e, como retratado nos seus filmes, ao conflito entre seres humanos dentro das diferenças culturais (do grupos sociais iguais ou diferentes).
Neste filme, com uma narrativa mais próxima de uma "história", dentro do que é o cinema de Garrone, assistimos às vidas cruzadas de um cenógrafo italiano, habitante da Praça Vittorio, local cada vez mais marcado pela presença de comunidades emigrantes na cidade de Roma (algo realçado na diferença de pontos de vista sobre os lugares de cada um na rua, assim como numa reunião de velhos comerciantes do bairro), da sua jovem assistente, que o ajuda a construir um globo do planeta Terra para uma peça de teatro (e que ocupa o lugar central da sua casa-estúdio), e de uma actriz reformada, dona do apartamento, que volta a uma cidade que já não reconhece para tentar encontrar trabalho.
Entre o falhanço e as dificuldades de trabalhos precários e mal sucedidos, das frustrações de opções de vida entre o compromisso da estabilidade e da arte, os personagens acabam por fugir de uma Roma que os sufoca para vender o seu produto de trabalho (o dito globo), numa viagem final que terá tanto de confuso, fantasioso e impulsivo, como de tocante pelo seu lado mais inesperado e trágico. Sempre próximo dos personagens que filma, Garrone realça o verdadeiro e o humano dentro do seu tom documental do quotidiano, abrindo aqui espaço para um palco mais fantasioso, próprio das possibilidades de uma narrativa cinematográfica atenta às suas possibilidades cénicas. As dificuldades do quotidiano mantém-se presentes, oferecendo também um retrato honesto de uma cidade de Roma próxima do realizador e reminiscente de episódios da sua própria vida nela.
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